312 Norte

Uma das quadras mais antigas da Asa Norte, ocupada a partir de 1966, a 312 já foi um bocado mal-afamada até os anos 1990 como um reduto de violentas e temidas gangues de adolescentes. Mais tarde, já no século XXI, a quadra passou a ser mais tranquila e valorizada pela tradição.

Em uma reportagem sobre os 50 anos da quadra 1) , escrita pelo jornalista Rafael Campos e publicada no Correio Braziliense em 17/06/2016, moradores e ex-moradores, como o jornalista Roberto Seabra, destacaram a segurança e o espírito comunitário da vizinhança.

História

Antes mesmo de 1966 a 312 Norte já havia iniciado seu processo civilizatório: em 19 de abril de 1963 foi inaugurada a Escola Classe da quadra2) .

Área residencial (SQN 312)

Prédios e equipamentos públicos

A 312 Norte tem 11 prédios residenciais:

A quadra também tem uma escola pública para crianças, o Jardim de Infância.

Comércio local (CLN 312)

É provável que o mais conhecido e celebrado dos estabelecimentos comerciais da quadra seja o Açougue Cultural T-Bone, de Luiz Amorim, que se declara um apaixonado pela quadra. O exótico “açougue” é um dos points culturais da cidade, com vários shows de celebridades nacionais. A rua costuma ficar parcialmente interditada em alguns dos espetáculos.

Na área especial da quadra, ao lado da W3 Norte, há um prédio de supermercado, que já foi ocupado pela SAB e atualmente é uma loja Carrefour Bairro.

Curiosidades

  • Na década de 1970, uma infestação de ratos foi combatida pelas crianças da quadra, armadas com estilingues, espingardas de chumbo e varas de pescar com queijo nos anzóis, segundo Roberto Seabra, em declaração à reportagem do Correio Braziliense.
  • A quadra foi o berço do movimento cultural Panelão da Arte, que foi do anos 1980 até a década de 1990, com o slogan “Panelão da Arte! Para acabar com as panelinhas!”.
  • Esta foi a primeira página do BrasiliaMinha sobre uma quadra do Distrito Federal, criada em 17/06/2016.

Pessoas

Discussão

Romário Schettino, 2016/06/19 00:08
312 Norte: meus medos e o terror do Estado

Por Romário Schettino

15 de junho de 1973, 19h, eu deixava meu trabalho no Banco Central do Brasil, no Edifício União, Setor Comercial Sul, onde, concursado, ocupava o cargo de escriturário.

Tinha 22 anos. Morava numa República no Bloco I, da 312 Norte, junto com 8 ou 10 jovens estudantes da UnB. Naquela época a população das repúblicas era flutuante, muitos visitantes e, de vez em quando, alguns “desaparecidos”.

Naquele dia, no estacionamento do banco, me esperavam vários policiais à paisana, fortemente armados com metralhadoras. De um carro da Polícia Federal, uma C 14, parada ao lado do meu fusquinha, desceram homens com a missão de me prender. Encapuzado, colocado no fundo do meu fusca, fui seqüestrado e levado para lugares que só pude identificar muito tempo depois.

Torturado com choques elétricos nos órgãos genitais, espancado, violentado durante uma semana só fui solto vinte e cinco dias depois do seqüestro sem a formalização de nenhuma acusação.

Os lugares por onde andei só puderam ser identificados por alguns dos sinais colhidos durante a prisão. Subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, Polícia Federal, PIC (...). Nesses lugares eu pude identificar as persianas do ministério (todas iguais até hoje), as celas individuais e os sons das cornetas anunciando a entrada e saída dos oficiais militares no PIC. Meus óculos de míope foram recolhidos e só entregues no final do sequestro 25 dias depois.

Depois de tudo isso, fui finalmente “devolvido” à 312 Norte. Um carro da polícia me abandonou no cerrado existente no que é hoje a SQN 114/115 Norte. Avisado para que me dirigisse ao estacionamento do supermercado da SAB na 312 (hoje é o Carrefour Bairro) encontrei meu carro estacionado. Dentro dele achei duas placas frias, usadas para outras prisões igualmente ilegais, clandestinas e arbitrárias.

A violência brutal contribuiu para a interrupção de minha vida profissional e estudantil. Perdi o emprego no Banco Central e fui jubilado do curso de História da UnB.

Na volta ao Brasil em 1975, dois anos depois de auto-exilado na França, consegui me reinscrever no curso de jornalismo, mas no emprego nunca mais consegui ser reintegrado. Nunca mais voltei à 312 Norte, a República foi desfeita e cada um seguiu seu rumo.

A 312 Norte para mim é uma lembrança sombria, apesar de ter gostado da quadra antes da prisão. Tinha no bloco em frente ao I uma feirinha de verduras e frutas que servia de abastecimento para todos diariamente.

Era difícil alugar apartamento para estudantes. Os donos e as imobiliárias simplesmente diziam não. O apartamento do Bloco I, da 312 Norte, foi um caso à parte.

Tudo era novidade para mim, que acabava de chegar de Caratinga, no interior de Minas Gerais. Chegar e sair de casa só era possível utilizando-se da linha Grande Circular, da TCB. Era a única condução coletiva. O trajeto até a UnB incluía estrada de chão, pois ainda não havia ligação asfaltada entre a W3 e a L2 Norte.

Naquele tempo podia-se viajar sem pagar, era só pedir ao motorista e alegar que estava sem grana. Tudo era mais fácil. Até as caronas eram possíveis.

Na W3, sacola no ombro, livros nas mãos, cabelos compridos eram sinais de que se tratava de estudante. A um sinal de braço logo parava um carro com um motorista simpático perguntando: pra UnB? Vamos.

A repressão do regime militar me arrancou da 312 Norte, onde eu era feliz e não sabia que haviam olhos grandes sobre mim.
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