Mil Quilômetros de Brasília

As avenidas já nasceram largas. As curvas, longas, abertas, sempre foram um convite à velocidade. O centro de Brasília ainda parece um autódromo – e já foi um. Entre 1962 e 1973 foram disputadas nas avenidas da capital as primeiras edições dos Mil Quilômetros de Brasília, uma corrida de rua para carros das categorias Protótipo e Turismo (esta baseada nos carros de série). Foi uma das mais importantes corridas do calendário automobilístico brasileiro e também era uma das maiores diversões dos candangos e jovens brasilienses dos primeiros anos do novo Distrito Federal.

Circuito de Brasília

Com algumas pequenas alterações de traçado nos anos em que foi utilizado, o então chamado “Circuito de Brasília” tinha cerca de 4,8km de extensão, e passava pela Rodoviária, pelo Eixão Norte, pela W3 Norte – que na época não tinha ainda um viaduto que a interligava à W3 Sul –, pelo Eixo Monumental até a Torre de TV, onde era feito o retorno para o outro lado do Eixo Monumental.

1962

A primeira prova, realizada como parte das comemorações do aniversário de Brasília em 1962, e o prêmio de Cr$ 650 mil foram vencidos pela dupla de pilotos Antônio Carlos Aguiar e Antônio Carlos Avallone (que viria a se tornar um dos mais importantes construtores de carros de corrida do Brasil nos anos 1970), que percorreu 209 voltas em 9h55m38,9s ao volante de um FNM JK. Na segunda posição, também ao volante de um JK, chegou a dupla Mário Olivetti e Hélio Rodrigues, e em terceiro lugar ficou o Willys Interlagos de Aguinaldo de Góes e o lendário Christian “Bino” Heins – que no ano seguinte viria a morrer num acidente nas 24 Horas de Le Mans.

1966

A segunda edição da corrida só viria a acontecer quatro anos depois, no dia 1o de maio. A corrida foi inicialmente liderada por um promissor jovem chamado Emerson Fittipaldi, ao volante de uma Alfa-Zagato, mas ele teve que abandonar com problemas mecânicos. A vitória ficou com Marivaldo Fernandes e Piero Gancia, ao volante de uma Alfa Giulia. Mário Olivetti repetiu o resultado anterior e ficou em 2o lugar com um protótipo com motor Alfa Romeo 2600. Na terceira posição ficou a dupla Pedro Victor Delamare e Ludovino Peres, com um Willys Interlagos modelo berlineta.

1967

Os protótipos Karmann-Ghia com motor Porsche da lendária Equipe Dacon, de São Paulo, não deram chance para ninguém mais na terceira edição dos Mil Quilômetros. Na primeira posição ficou a dupla formada por ninguém menos que Wilson Fittipaldi Júnior e José Carlos Pace, futuros pilotos de F-1. Emerson Fittipaldi dessa vez não teve problemas e chegou em segundo, correndo em dupla com Francisco Lameirão. Na terceira posição ficaram Lian Duarte e Rodolfo Costa.

1968

1000km_patinho_feio.jpgLuiz Pereira Bueno, que viria a disputar o primeiro GP do Brasil de F-1 em 1973, correu em dupla com o já vencedor José Carlos Pace e faturou a quarta edição dos Mil Quilômetros depois de 9h22m29,9s. Pilotando um protótipo Mark II-Bino da equipe de fábrica Ford-Willys, a dupla fez um início de prova espetacular para assumir a liderança na 39a volta, deixando para trás os Alfa Giulia, os BMW e o histórico protótipo Fitti-Porsche de Emerson. Já virando dono da posição no pódio, Mário Olivetti chegou em segundo lugar, pilotando uma Alfa-Romeo GTA com Renato Peixoto. O Fitti-Porsche ficou em terceiro nas mãos de Emerson e Lian Duarte.

No enorme grid de 43 participantes, estava pela primeira vez o Patinho Feio, talvez o mais famoso carro de corridas já produzido em Brasília, que havia sido inaugurado na corrida dos 500km de Brasília do ano anterior: pilotado por João Luiz da Fonseca e pelo futuro piloto de F-1 Alex Dias Ribeiro, o assustador protótipo vemelho feito na Oficina Camber teve como um de seus mecânicos Nelson Piquet e terminou na 12a posição1) . Anos depois, Alex e Piquet viriam a dizer que, de tanto bater no meio-fio do circuito, o carro terminou a prova com as rodas dianteiras apontando uma para cada lado.

1969

José Carlos Pace consagrou-se como o rei do Circuito de Brasília ao vencer pela terceira vez a corrida, em 209 voltas e 9h23m37s, e o prêmio de NCr$ 30 mil, correndo em dupla com seu grande amigo Marivaldo Fernandes em um Alfa-Romeo GTA. Em 1977, Pace estava indo para a fazenda de Marivaldo no interior de São Paulo quando seu avião caiu, e morreu justamente no ano em que se tornara um dos favoritos para o título na F-1.

A dupla vitoriosa assumiu a ponta já na 3a volta, mas foi pressionada durante a corrida pelo também Alfa-Romeo GTA que chegou na segunda posição com – adivinha? – Mário Olivetti, correndo em dupla com Pedro Victor Delamare. A terceira posição ficou com Ricardo Archer e Aguinaldo de Góes, em uma BMW 2000 (mas segundo o jornal Correio da Manhã de 23/04/1969, Archer correu com Emerson Maluf2) ). A prova teve nada menos que 57 carros.

1970

A prova especial dos dez anos da nova capital não teve exatamente mil quilômetros: o percurso foi reduzido para somente 869km, e esta foi a última edição da corrida no CIrcuito de Brasília. Emerson, Wilsinho e Pace já estavam se aventurando na Europa, rumo à Fórmula 1, e a vitória ficou com a dupla Clóvis Ferreira e Toninho da Matta – que viria a ser campeão brasileiro de Turismo nada menos que 14 vezes e pai do piloto de F-1 e F-Indy Cristiano da Matta. A dupla correu com um Puma GT com motor VW aumentado para 2.0, que superou a temida Alfa-Romeo GTA de Marivaldo Fernandes e Emílio Zambello, e também foi um Puma GT que chegou em terceiro lugar com Angi Munhoz e Freddy Giorgi.

Autódromo de Brasília

Em 1974, após a inauguração do Autódromo de Brasília em fevereiro, a corrida dos Mil Quilômetros não mais utilizou o CIrcuito de Brasília – o que tirou muito do seu charme original. O traçado do autódromo, com 5.475m, também fez diminuir o número de voltas.

1974

Sob as novas regras do Campeonato Brasileiro de Turismo, que estabelecia divisões entre os carros de acordo com a cilindrada dos motores, a primeira edição dos Mil Quilômetros no Autódromo de Brasília, em 31 de março, teria 183 voltas, mas uma forte chuva no fim da corrida fez com que a prova fosse dada como completada após 150 voltas. A dupla Paulo Gomes e Antônio Castro Prado, ao volante de um Ford Maverick com motor 5.0, foi a vencedora na classificação geral e na Classe C (3.001 a 5.000cc), seguida por Newton Pereira e Fábio Crespi com um carro similar.

Na classe B, para carros de 1.601cc a 3.000cc, venceu a dupla Clóvis Ferreira e Ronaldo Augusto, com um Opala 2500 número 61. Na classe A, para carros de até 1.600cc, a vitória ficou com o VW Brasília dos pilotos Roberto Savio e Antônio Ribeiro.

1975

Uma dupla de futuros jornalistas do automobilismo foi a vencedora da edição de 1975 dos Mil Quilômetros: Bob Sharp e Edgard Mello Filho, pilotando um Ford Maverick da Classe C. Uma volta atrás chegou, também de Maverick, a dupla de José Carlos Catanhede e Ruyter Pacheco, que viria a se tornar administrador do autódromo nos anos 1990, e outro Maverick ficou com a terceira posição geral, pilotado por Aloysio Andrade Filho e Ricardo Lenz.

Outro jornalista de automobilismo, e de Brasília, fez parte do trio vencedor da Categoria B, sétimo lugar na classificação geral: José Roberto Nasser, o futuro fundador do Museu do Automóvel de Brasília, correndo em trio com Aloisio Kreischer e Murillo Pilotto ao volante de um Alfa-Romeo.

A vitória na Classe A ficou com Xandy Negrão e Otto Carvalhaes, ao volante de um VW Passat.

Referências

Enciclopédia do Automóvel, vol.2, p.346 a 347. Editora Abril Cultural, 1975.

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